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Natal na praça
Trôpega, maltrapilha, imunda, carregando uma pontiaguda barriga de nove meses de uma gravidez irresponsável, a mendiga subiu com dificuldade a Avenida João Pinheiro em meio ao transito caótico, faróis e buzinas na noite do dia 25 de dezembro.
Andar de velha em corpo de menina.
Tinha um vazio gigantesco no estômago e muita sede. Nas mãos suadas carregava uma sacola de plástico com seus objetos pessoais: restos de um batom carmim achado no lixo, um cachimbo e duas pedras de crack, um crucifixo de madeira amarrado a um barbante ensebado, uma garrafinha com cachaça da pior qualidade e uma caixa de fósforos Fiat-Lux.
Quantos anos teria?
Talvez uns dezessete, embora aparentasse mais. Mas era bonita quando conseguia sorrir. Mulata com os dentes muito brancos e olhos melancólicos. Ficou deslumbrada com as luzes de natal que enfeitavam as árvores da praça. Parada no meio da Alameda Travessia girava o corpo olhando o espetáculo que piscava estonteante. Assustou-se com um horrendo boneco inflável de papai-noel que parecia querer desabar sobre as pessoas e tinha um sorriso debochado.
Na praça lotada, crianças, pais e avós bem vestidos, perfumados e rosados exibiam orgulhosos roupas e brinquedos, presentes fartos que haviam recebido na véspera. A fonte luminosa atraiu sua atenção. Sem cerimônia, arregaçou a barra do vestido esfarrapado, entrou no lago e ficou fascinada com a água que lhe caia sobre o corpo mudando a cor de sua pele a cada instante. Saciou sua sede bebendo azuis, lilases e amarelos que caiam do céu como uma chuva de estrelas molhadas. E gargalhou e dançou no meio das águas até que o guarda a mandou sair dali.
A esta altura uma pequena multidão já se aglomerava comentando indignada tamanha transgressão. Saiu feliz de dentro do lago e foi secar-se debaixo de uma árvore de onde pudesse ficar olhando as luzes que a envolviam. Uma lâmpada maior traçava uma curva no céu como se fosse uma estrela cadente. Um vira-lata pulguento veio lhe fazer companhia e deitou ao seu lado em busca de afago.
Foi quando sentiu a primeira pontada e depois mais outra e tantas outras que gritou e se contorceu de dor, rolando na grama sem poder falar. Seu grito mais alto paralisou as pessoas que a olhavam horrorizadas. Levantou a saia, colocou as mãos sobre o ventre e entre uivos e espasmos empurrou a barriga de onde parecia querer sair uma vida aflita. E o sangue começou a tingir a grama bem aparada anunciando o parto iminente. A mulher do pipoqueiro correu para ajudar trazendo panos de chão e páginas de jornal que colocou sob o corpo da mendiga e segurou-lhe as mãos dando apoio e força. O guarda da praça parecia não acreditar que aquilo estava acontecendo e zanzava nervoso tentando pedir socorro pelo celular.
Mais gente se acotovelava em volta para assistir e as mães zelosas levavam para longe as crianças, para que não conhecessem tão cedo a miséria humana. De dentro da mulher, entre sangue e placenta, começou a surgir uma vida franzina. Primeiro a cabeça e a cada uivo mais um pedaço de gente era expelido sob os olhares incrédulos dos espectadores. Outra mulher que carregava uma enorme sacola de presentes correu para ajudar a retirar a criança. Os flashes das câmeras de celulares registravam segundo a segundo o espetáculo da vida.
Num último e lancinante grito que se misturou com o choro primal de uma criança a mulher pôs para fora o fardo indesejado que carregava. Foi quando chegaram os três bombeiros, trazendo mala, medicamentos e maca. Aflitos, calçando as luvas de borracha, o primeiro lhe mediu a pressão, outro lhe aplicou soro e medicamentos e o terceiro cortou o cordão umbilical e envolveu a recém-nascida em uma espécie de plástico prateado e colocou-a no colo da mãe.
Jesuína, disse a mendiga. È como vai se chamar a minha filha. Mas não posso ficar com ela, quem quiser pode levar... completou.
Uma senhora se aproximou e estendeu-lhe um xale que tirou dos ombros. Uma menina loirinha desprendeu-se da mãe, correu até a mulher e entregou a ela uma boneca que havia acabado de ganhar. Um deputado que passeava com a família vociferou contra aquele absurdo e seguiu seu caminho. Tinha acabado de aumentar seu próprio salário, presente de natal que havia dado a si próprio, indiferente à miséria do povo. Um preto-velho abençoou a menina numa língua ininteligível e estendeu à mãe uma garrafinha de plástico com água pela metade. É benta, disse.
O pipoqueiro lhe deu de presente um saquinho de “pralinê”: pra forrar o estômago,disse solidário.
Foi quando chegaram as equipes de TV em busca de mais uma notícia de natal para exibir nos noticiários do mundo cão. Os bombeiros colocaram a mãe sobre a maca, um deles pegou a criança no colo e seguidos pela multidão entraram na ambulância que desceu a avenida com a sirene aberta.
De repente todas as luzes da praça se apagaram e ficou apenas um raio de lua por entre a copa das árvores, jogando luz sobre o local onde havia nascido a menina.
Tinha sido natal na Liberdade.
2007
